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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
     Um desejo forte e íntimo surgiu e não pude a ele negar nada. Veio-me a vontade de escrever uma história, onde consegui representar um pouco do que sou e sinto na principal e única personagem. Nada grandioso, afinal não sou Machado, mas intimista e "acolhedor". Um pouco da minha dor, para justificar meus rumos.
    Nesse texto usufruo de uma brilhante e agonizante música húngara, traduzida para o inglês, Gloomy Sunday, ou no bom português, Domingo sombrio. Essa música, muito densa e triste, composta pelo húngaro Rezső Seress em 1933, é apontada como causa de pelo menos 100 suicídios em todo o mundo, sendo conhecida como canção húngara do suicídio. O próprio Rezso foi uma de suas vítimas.
    A música  foi composta para uma antiga namorada, pela qual alimentava grande afeição. Como forma de desabafo, escreveu a canção expunha todos os seus sentimentos.
    A música tempos após o seu lançamento na Hungria foi proibida pelo governo, em função dos inúmeros assassinatos atrelados à mesma. A medida surtiu efeito contrário e a música logo se tornou um grande sucesso, principalmente quando em 1941 foi regravada por Billie Holiday.
    Satisfeito com o sucesso alcançado e acreditando ter reconquistado seu amor, R. Seress foi atrás de sua namorada, mas descobriu que ela havia se matado por envenenamente e ao seu lado, estava a letra de Gloomy Sunday.
   Aquilo foi o sufuciente para atiçar seu instinto suicida. Antes de morrer, Seress declarou sobre sua música: "Essa fama fatal me machuca. Eu chorei todas as tristezas de meu coração nessa música e parece que outras pessoas, com sentimentos como os meus, encontraram sua própria dor".
   Acredito que a música e sua história seja o suficiente para revelar a atmosfera desse texto.
   Uma grandiosa música, para um grandioso fim.


Domingo Sombrio

O ambiente era fúnebre e denso. Já tardava nove e pouco da manhã e as janelas permaneciam trancadas e a cortina mantinha-se fechada.  O sol brilhava eufórico aquele belo domingo, trazendo sua luz ao mundo e acompanhando mais um dia para muitos. Para muitos.
Ela não se sentia bem. Não era aquela a primeira vez e entendia não ser a última. Ninguém a entendia, diziam ser besteira, diziam ser fraqueza. Não entendiam a guerra que ali se passava, mas que chegava ao fim.
Ela estava só, no canto mais confortável da sala. No lado esquerdo, a última garrafa de uísque esvaziada. No lado direito, a lembrança do último cigarro recentemente apagado.
  O sol brilhava ao seu redor alegremente a contagiar o mundo com sua alegria de bom rapaz, mas ela, ela não se sentia por ele abençoada,  pois afinal a alegria não é para quem acorda e sim para quem vive.
Naquela manhã resolvera não trabalhar, não levantar, não acordar e sim manter-se estática, no mesmo lugar em que a noite se prostrara.
Todo apartamento alimentava um intenso silencio, só ouvia-se o ranger desesperado da agulha da velha vitrola, notificando o fim de um lado  do disco. Ah, o disco. Esse era um disco especial, uma maldita herança de família, comprado pelo seu avô, herdado por seu pai e agora miseravelmente preso em seus braços.
O disco era velho, ou como preferem proclamar os bons admiradores da música, clássico. Era um lp de 12 polegadas convencional ou nem tanto. Uma obra prima dos anos 30 que reunia na sua megalomania as magníficas interpretações de Lady Day. Que voz. Mas nem mesmo sua delicada voz era capaz de destruir a severa muralha que construíra em torno a si.
Aquele disco, ele lhe trazia muitas lembranças nada belas de se reviver. Sobre o som da última faixa do lado B encontrara seu pai morto. Há muito não ousava tocar naquele disco ou até mesmo fintá-lo, mas naquela madrugada, perdida e só, não via escolhas ou quaisquer soluções ao não ser tocar aquela maldita arte que tanto lhe afligia.
Cada faixa era como lâminas recém afiadas, que em seu corpo penetravam gozando de sua dor.
Apesar de todo o furacão que armava-se em silêncio dentro de sua alma, manteve-se ali, tranquilamente calada, poeticamente solitária.
Levantou-se enfim e caminhou até o banheiro, onde fez a si o favor de pela última vez  encarar seus olhos negros, inchados e sombrios. Quebrou o espelho, sentindo-se satisfeita de nunca mais ter de se reconhecer.
Calculou cada passo até a cozinha onde buscou um copo, gelo e a mais cara garrafa de vodka que possuía. As dores começaram pela nuca, sutis, carinhosas.
O disco tocava, cada vez mais lento, cada vez mais intenso. Ela caminhava  brandamente ou voava, como parecia sentir.
Retornou à sala, onde alegre, posicionou-se no sofá rasgado que mantinha intacto, como reflexo de si.  Seu coração ardia.
Colocou o copo sobre a mesa e serviu-se de exagerada dose de vodka. A última dose fria.
Enfim, sentia os passos lentos da última faixa. Ela se aproximava, com sutis punhaladas no peito, a drástica introdução de piano e a voz, que crescia, pouco a pouco.
“Sunday is gloomy
My hours are slumberless
Dearest the shadows
I live with are numberless”

O álcool lhe escoou ardente a garganta e o corpo. As palavras entravam em sua mente e internamente, sem autorização ou respeito, iniciavam uma grande batalha.

Death is no dream
For in death I'm caressing you
With the last breath of my soul
I'll be blessing you

I'll be blessing you, I'll be blessing you…”, repetia em seu íntimo. Sentia os últimos minutos daquele dia, agora subindo pelas suas veias suprimidas e sentia o fim da música, que a atacava com covardia.
O remédio iniciava sua ação. Sim, encontrara a solução para sua maldita agonia, a vida; não tomaria mais antidepressivos, não tomaria mais a existência de seu corpo ou a morte em vida de sua alma. Não.
Não passaria mais noites em claro, olhando a avenida movimentada de miragens e alucinações, sentindo em sua mente todo o peso do seu ser, não seria mais a telespectadora de seu drama demoníaco.
“Não, nunca mais.”
O último gole da amarga bebida descia como doce e a tornava agora a bela criança que a muito havia se perdido. As últimas letras da música ainda ecoavam em sua mente.

Darling, I hope
That my dream never haunted you
My heart is telling you
How much I wanted you
Gloomy Sunday
Gloomy Sunday
“Gloomy Sunday, gloomy Sunday....”
O disco continuou a tocar, fixo em um único ponto sem volta, o momento exato de seu sono permanente, sem fim. Gloomy Sunday, gloomy Sunday. Antes da última palavra, imaginou se aquele seria um domingo sombrio a alguém, mas só viu em todo o universo a sua imagem vazia. Gloomy Sunday.
Seus olhos fecharam e o único indício de vida naquele apartamento escuro era da música que não morrera e o disco que persistia em sorrir.

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